Esta é uma pergunta difícil. Penso que não devo relatar factos, porque isso seria apenas preencher um livro, daqueles que são sempre a mesma coisa, e que me desesperava preencher (no final a letra tornava-se ilegível).
Ingressei na Marinha quando todos nós os grumetes. Excepto aqueles que já eram marinheiros (electricistas penso eu na totalidade, excepto o Almeida), o Ribeiro orgulhava-se desse facto, para o Fradique era pretexto para um petisco (qualquer pretexto servia), e eu reagia na minha natural indiferença, ainda meio “zonzo” da recruta (não sabia ainda o que tinha acontecido).
Aqueles que me deixaram melhores recordações foram: O Rodrigues pelo seu tamanho proporcional à candura , o Baptista devido à sua leveza de espírito, o casal Bento (inseparáveis), o Jerónimo com sua veia poética a escrever o livro do grumete de serviço, o Dias todo higth-tech, o Santos sempre excelente em temas linguísticos, o Clementino interessado por mulheres, e de cujo órgão sensível surgiu a sua alcunha, o Correia com quem passei algum tempo embarcado (julgo que nos Açores e na A.Cabral), e o grande Silva que na altura era muito sensível, perfeccionista e trabalhador, e o Almeida todo cheio de problemas de pontualidade.
Todos os outros, penso que 19 no total, também deixaram-me recordações e histórias, a maioria felizes, de um tempo despreocupado e de aprendizagem de uma profissão.
Foi assim que passamos os 2 anos em V.Franca, tempos de juventude e de sonhos. É de notar o empenho de todos nós ao longo do curso porque houve notas muito boas no final (Silvério, Ribeiro e uma boa media que me lembre). No final do 2º ano comecei a ir a casa com mais frequência devido a um maior desafogo financeiro.
Finda a especialização tomei a minha relação com a M. Leonor mais a sério e vivemos juntos alguns anos, ela era professora de história e andava sempre a ser colocada em sítios esquisitos. Finalmente ficou colocada em Alcobaça de uma forma permanente, o que tornou a nossa relação mais difícil.
Terminado este período de preparação, embarquei rumo aos Açores e para além da linha do horizonte.
Gostei da minha permanência nos Açores com o Correia e uma estadia em Hamburgo com o Silvério, quando da recepção da V.Gama. Viajei até África em 1992, e relembrei os meus dias de infância passados na Guiné.
Passei à reserva em 2002 depois de um percurso curto e atribulado, e durante algum tempo encontrei o Batista na Amadora, disse-me que ia para o Brasil…
Foi nessa altura e através dele, que soube que o Ribeiro também tinha passado à reserva, e que tinha ido viver para a Madeira. Espero que esteja feliz com a sua família.
Entretanto terminei a licenciatura em 2003, e já trabalhei em algumas empresas em informática (programação em VB e WEB e alguma administração de sistemas) ou electrónica (marítima e electromedicina) na dita sociedade civil. É diferente: as relações são mais precárias, e a competição é muito forte ao ponto de valer a delação e a mentira. Nesta última o atraso de pagamento dos clientes está a pôr em causa a sua existência (tempos de crise). Contudo não me queixo. Não gosto do ambiente e vou rescindir contrato. Já falei com a minha contabilista com vista a formar uma pequena empresa de consultadoria (todo o trabalho é bem vindo) e já ando à procura de cliente para o start-up.
Há quatro anos conheci a Nilva a minha actual companheira, penso que encontrei a pessoa certa, ela é brasileira descendente de italianos, trabalha como directora comercial numa empresa italiana de produtos alimentares, viajo muito com ela quando posso ou quando estou parado, temos uma vida feliz embora modesta. Ajudo-a na organização do escritório porque ela tem muitos agentes para controlar. Só tem um senão: Massa Canelonnis lasanha, pizzas macarronada de todas as formas e feitios… socorrroooo!!! é demais baaaa!!!
Esta minha participação no blog dos electrotécnicos de 84 resulta de 2 encontros ocasionais com o Silva, no IKEA e na administração central de marinha, onde estou a tratar do processo de passagem à reforma. Falei um bocadinho com ele e parece-me entusiasmado com as suas novas funções ele merece o sucesso pessoal alcançado.
Soube também que houve um jantar comemorativo dos 20 anos, eu não fui porque não conseguiram contactar-me. Sou o eterno incontactável.
No final desejo a todos felicidades acima de tudo estarem bem convosco e com aqueles que vos são próximos, nós estamos a ficar quarentões (alguns com um perfil arredondado como eu) mas penso que contentes com que a vida nos premiou, que eu saiba não há nenhum caso de doença ou aflição maior.
Um abraço gigante para todos deste Costa errante pelo mundo!
Nota: Artigo adicionado pelo Dias, a pedido do autor