
Relato dos acontecimentos até à consulta no Hospital da Marinha
De 15 de Fevereiro de 2009 a 30 de Abril de 2009 estive na escola KMTO da Marinha Holandesa em Den Helder, Países Baixos, para receber formação do curso “WE Management M-FF“, o qual deveria durar até 3 de Julho de 2009.
No dia 14 de Abril sofri um acidente à saída do alojamento em Maaskamp (Den Helder) no caminho para as aulas na escola KMTO. Fui internado no Hospital Gemini, em Den Helder, onde fui operado a fracturas na tíbia e perónio da perna esquerda, no dia 21 de Abril. A partir do dia 27 poderia ter saído do hospital, conforme as indicações dos serviços médicos. Contudo, de acordo com as informações que recebi através da cadeia hierárquica da Marinha Portuguesa em Den Helder, ou seja a missão (MAF)[1] chefiada pelo CMG[2] Coelho da Palma, nomeadamente através do POC[3] dos formandos SAJ[4] R Costa Ferreira, eu não poderia ser transportado para Portugal enquanto não houvesse alguém para me acompanhar e enquanto a TAP não confirmasse a preparação de um lugar numa aeronave com as condições adequadas ao meu estado clínico.
Entretanto foi pedido ao médico holandês que me operou, o cirurgião Dr. Jeffrey de Jong, que preenchesse um documento solicitado pela TAP com as condições para o meu transporte. A condição fundamental explicitada pelo médico foi que o tranporte deveria permitir que eu viajasse com a perna esticada. Até ao dia 30 a Missão da Marinha Portuguesa em Den Helder não me indicou qualquer pessoa para me acompanhar, apesar de elementos dessa mesma Missão terem viajado para Lisboa nos dias anteriores.
No dia 30 de Abril de manhã saí do Hospital Gemini, em táxi, até aos alojamentos em Maaskamp, acompanhado por um formando que se voluntariou por camaradagem. No mesmo dia, cerca das 15 horas, saí de Maaskamp (Den Helder) para o aeroporto de Schiphol (Amesterdão) no autocarro da Marinha Portuguesa que transportou outros formandos (pois todos os cursos foram interrompidos no dia anterior). A viagem, de quase 1h 30m, decorreu com a perna parcialmente encolhida em dois lugares do autocarro, com a ajuda de uma almofada para tentar suportar o incómodo e as dores.

No aeroporto de Schiphol fui ajudado por outros formandos, por voluntariado e camaradagem, de modo a conseguir uma cadeira de rodas ou outro apoio dos serviços do aeroporto, o qual tinha sido anteriormente solicitado pelo formando mais antigo (1TEN[5] EN-EAL Amaral Moreira). Contudo, o apoio dos serviços do aeroporto, durante as várias horas até ao embarque, limitou-se ao fornecimento de uma cadeira de rodas, a qual foi empurrada pelos camaradas (formandos) presentes para o mesmo voo.
A aeronave partiu cerca das 19 horas (18 em Lisboa). Não tive quaisquer condições especiais a bordo, tendo viajado apenas com um lugar vago ao meu lado (em classe económica), o que não me permitiu esticar convenientemente a perna (ao contrário do que tinha sido indicado pelo médico), com o consequente incómodo e aumento das dores.
À chegada ao aeroporto de Lisboa os camaradas (formandos) pediram apoio, tendo sido fornecida uma cadeira de rodas e um funcionário do aeroporto para me acompanhar. Alguns camaradas e o funcionário só me deixaram quando encontrei os meus familiares no átrio das chegadas do aeroporto.
Durante os últimos dias na Holanda tive sempre a informação, da cadeia hierárquica da Marinha Portuguesa em Den Helder, que tinham sido efectuados todos os contactos necessários para garantir que à chegada ao aeroporto de Lisboa eu teria apoio hospitalar e transporte (ambulância) para o Hospital da Marinha [HM]. No entanto, não houve qualquer apoio nem transporte, nem do HM nem de qualquer outro serviço da Marinha Portuguesa. Após busca e espera infrutíferas, os meus familiares telefonaram para o Hospital da Marinha, para os números que constam no folheto Guia do Utente. Não foi possível qualquer contacto, após várias tentativas. Um familiar que tinha o número do Hospital Militar ligou para lá para perguntar quais os números do HM, tendo sido confirmados os mesmos. Posteriormente soube que o contacto telefónico (rede fixa) do HM por vezes não funciona bem fora das horas de serviço regular, quando as chamadas para a central telefónica passam para a recepção.

Não sendo possível o contacto com o HM, dirigi-me para a minha residência, após a extenuante jornada desde o hospital na Holanda e as viagens de táxi, autocarro e avião e respectivas esperas intermédias. Com tudo isto, cheguei a casa cerca de 13 horas depois de ter saído do hospital na Holanda.
No dia 1 de Maio, de manhã, voltei a ligar para o Hospital da Marinha, tendo falado com o médico de serviço, o qual manifestou surpresa pelos factos acima relatados, nomeadamente a falta de apoio e transporte à chegada ao aeroporto de Lisboa. Por indicação desse médico, liguei de novo para o Hospital da Marinha na segunda-feira, 4 de Maio, cerca das 08h45. O médico de serviço deste dia disse-me que eu teria que contactar ou apresentar-me primeiro na minha unidade e só depois iria à consulta de ortopedia, sendo a minha unidade a providenciar o transporte.
Cerca das 09h50 de 4 de Maio consegui contactar a DSP-RSP[6]. Após vários telefonemas disseram-me que iam “fechar” a minha guia (de deslocação à Holanda), com a data de 4 de Maio. Disseram-me também (cerca das 10h30) que eu deveria passar pela RSP para levantar a guia de retorno à minha unidade de origem (ETNA-DAE)[7], para que esta unidade me passe uma guia para a consulta de ortopedia.
No dia 4 de Maio, de tarde, contactei o ODU[8] da ETNA, Ten. Trindade, a qual me disse que ia falar com o Serviço de Saúde da unidade. Mais tarde disse-me que o Serviço de Transportes me transportaria em ambulância na quarta-feira, 6 de Maio, o mais próximo dia de consulta de ortopedia. Posteriormente o Serviço de Transportes comunicou que não tinha possibilidade de efectuar o transporte, o qual devia ser solicitado ao Centro de Medicina Naval (do Alfeite) [CMN]. No dia 5 de Maio fui informado pelo ODU da ETNA que uma ambulância do Centro de Medicina Naval me transportaria no dia da consulta. De tarde recebi um telefonema desse CMN para confirmar e combinar a hora e local para me virem buscar. Cerca das 17 horas o enfermeiro de serviço do mesmo CMN informou-me que afinal não poderiam vir buscar-me no dia seguinte e que eu deveria procurar ir para o HM pelos meus próprios meios, apresentando depois a conta na minha unidade. Informei então o ODU da ETNA, o qual nada pôde fazer.
No dia 6 de Maio desloquei-me ao HM num táxi, com o banco extendido o mais possível. Cheguei ao HM antes das 8 horas. Na recepção conduziram-me ao banco de urgências/triagem.
Enquanto estive lá contei à médica de serviço, Drª. Shery Costa, a falta de apoio do HM quando cheguei ao aeroporto. Esta médica e o Dr. Poças Rascão foram investigar e posteriormente garantiram-me que a única informação que o Hospital da Marinha recebeu foi que eu seria evacuado, mas sem qualquer informação sobre o dia, nem hora nem voo. Disseram-me também que foi tentado o contacto com o POC dos formandos (SAJ R Costa Ferreira), não tendo sido possível esse contacto. Essa impossibilidade de contacto condiz com a informação que tive ainda em Den Helder que o SAJ R Costa Ferreira já estaria indisponível pelo menos a partir da terça-feira antes do meu regresso; os outros elementos da MAF também regressaram a Lisboa antes de mim.
No HM fiz novas radiografias, fui observado pelo Dr. Pires e foi-me tratada a cicatriz da operação. À primeira vista está tudo bem e a cirurgia efectuada no Hospital Gemini de Den Helder foi um trabalho bem executado.
Após as 15 horas o banco do HM conseguiu arranjar-me transporte para casa, aproveitando uma ambulância que veio fazer outro serviço na Margem Sul.
501184 SAJ ETA Nunes dos Santos
Abreviaturas:
- [1] MAF: Missão de Apoio à Formação
- [2] CMG: Capitão de Mar e Guerra
- [3] POC: Point-of-Contact (ponto de contacto)
- [4] SAJ: Sargento-Ajudante
- [5] 1TEN: Primeiro-Tenente
- [6] DSP-RSP: Direcção do Serviço de Pessoal — Repartição de Sargentos e Praças
- [7] ETNA-DAE: Escola de Tecnologias Navais — Departamento de Armas e Electrónica
- [8] ODU: Oficial de Dia à Unidade